A armadilha da competência

Por que a competência que construiu sua carreira pode se tornar, silenciosamente, o maior obstáculo ao seu próximo nível… e como desenvolver o discernimento e a humildade necessários para reconhecer quando aquilo que funcionou no passado já não é suficiente para responder aos desafios de uma realidade mais complexa
Poucas experiências são tão gratificantes quanto perceber que nos tornamos bons naquilo que fazemos. A competência abre portas, inspira confiança e amplia oportunidades. Ela é, sem dúvida, um dos pilares sobre os quais construímos uma carreira sólida.
Paradoxalmente, é também nesse ponto que pode surgir um dos maiores obstáculos ao crescimento.
Ao longo da vida profissional, somos promovidos porque dominamos determinadas competências. O analista que entrega resultados torna-se coordenador. O coordenador que resolve problemas torna-se gerente. O gerente que conduz equipes com eficiência assume uma diretoria. Em cada etapa, desenvolvemos habilidades que explicam nossa trajetória até ali.
O desafio começa quando imaginamos que essas mesmas habilidades serão suficientes para nos conduzir ao próximo nível.
Nem sempre serão.
Marshall Goldsmith sintetizou essa ideia em uma frase que se tornou referência na literatura sobre liderança: o que trouxe você até aqui não será, necessariamente, o que o levará adiante. À primeira vista, parece uma constatação simples. Na prática, ela desafia uma tendência profundamente humana: continuar confiando naquilo que um dia funcionou, mesmo quando o contexto já mudou.
Essa dinâmica não se restringe ao ambiente corporativo. Ela acompanha diferentes momentos da vida.
O empreendedor que construiu sua empresa controlando cada detalhe descobre, em determinado momento, que o crescimento exige delegar. A executiva reconhecida pela excelência técnica percebe que, ao assumir uma posição de liderança, seu principal desafio deixa de ser executar e passa a ser desenvolver pessoas. A mãe que dedicou anos protegendo os filhos compreende que amadurecer também significa permitir que eles enfrentem as próprias escolhas.
Em todos esses casos, a competência permanece valiosa.
O que muda é a sua função.
Quando insistimos em responder a novos desafios com recursos desenvolvidos para um contexto anterior, aquilo que antes representava uma vantagem passa, silenciosamente, a limitar nosso crescimento.
Herminia Ibarra, professora da London Business School, observa que as grandes transições profissionais raramente acontecem apenas pela aquisição de novos conhecimentos. Elas exigem uma transformação na maneira como nos percebemos. Em outras palavras, não basta aprender novas técnicas. É preciso construir uma nova identidade compatível com as responsabilidades que desejamos assumir.
Essa talvez seja uma das etapas mais desafiadoras da carreira.
Porque aprender costuma ser mais confortável do que desaprender.
Aprender amplia repertórios.
Desaprender exige renunciar a certezas.
Robert Kegan, um dos principais estudiosos do desenvolvimento adulto, argumenta que amadurecer significa ampliar nossa capacidade de revisar estruturas mentais que, durante muito tempo, pareceram suficientes para explicar o mundo. Esse processo não acontece porque as competências antigas eram inadequadas. Acontece porque elas deixaram de responder às exigências de uma realidade mais complexa.
Talvez por isso tantos profissionais experimentem dificuldades justamente depois de alcançarem posições de maior responsabilidade. Não lhes falta conhecimento. O que frequentemente lhes falta é disposição para abandonar comportamentos que, durante anos, sustentaram sua identidade profissional.
Vejo essa realidade com frequência ao acompanhar líderes e executivos. Muitos chegaram longe porque eram rápidos para decidir, altamente disponíveis, centralizadores ou profundamente técnicos. Essas características foram decisivas em determinada fase da carreira. O problema surge quando continuam sendo utilizadas como resposta para desafios que agora exigem escuta, influência, desenvolvimento de pessoas e visão sistêmica.
Aquilo que antes produzia crescimento começa a produzir estagnação.
Esse movimento também pode ser observado fora das organizações.
Há pessoas que permanecem defendendo opiniões apenas porque elas fizeram sentido em outro momento da vida. Outras continuam reproduzindo formas de trabalhar, liderar ou educar que funcionaram no passado, mas já não dialogam com a realidade presente. Em todos esses casos, o maior obstáculo não é a falta de capacidade para aprender.
É o apego ao que um dia deu certo.
Ronald Heifetz, ao estudar liderança adaptativa, afirma que os maiores desafios não são aqueles que se resolvem com respostas conhecidas, mas os que exigem mudanças na forma de pensar, interpretar e agir. Problemas novos raramente encontram soluções antigas.
Talvez seja esse o verdadeiro significado do desenvolvimento.
Não acumular competências indefinidamente.
Mas desenvolver discernimento para reconhecer quando uma competência precisa deixar de ocupar o centro da nossa atuação.
Ao contrário do que muitas vezes imaginamos, maturidade profissional não consiste em saber cada vez mais.
Consiste em permanecer suficientemente humilde para admitir que aquilo que nos trouxe até aqui pode não ser suficiente para nos levar adiante.
Essa humildade não diminui nossa experiência.
Ao contrário.
É ela que impede que a experiência se transforme em rigidez.
No fim, as carreiras mais consistentes não pertencem às pessoas que aprenderam mais rapidamente.
Pertencem àquelas que nunca deixaram de aprender, mesmo quando já tinham motivos de sobra para acreditar que sabiam o suficiente.
Porque sua melhor versão não é construída pela soma das competências que você acumula.
Ela se revela na coragem de continuar se transformando, mesmo quando o mundo já reconhece aquilo que você sabe fazer.
Referências bibliográficas
GOLDSMITH, Marshall. What Got You Here Won't Get You There. New York: Hyperion, 2007.
HEIFETZ, Ronald A.; LINSKY, Marty. Leadership on the Line. Boston: Harvard Business School Press, 2002.
IBARRA, Herminia. Working Identity: Unconventional Strategies for Reinventing Your Career. Boston: Harvard Business School Press, 2004.
KEGAN, Robert; LAHEY, Lisa Laskow. An Everyone Culture. Boston: Harvard Business Review Press, 2016.
KEGAN, Robert. In Over Our Heads: The Mental Demands of Modern Life. Cambridge: Harvard University Press, 1994.
SENGE, Peter M. A Quinta Disciplina. Rio de Janeiro: BestSeller, 2018.






